O diagnóstico recente divulgado pelo Banco Central expõe uma profunda e preocupante contradição da economia brasileira contemporânea. Mesmo com o mercado de trabalho mostrando dados de aquecimento e a taxa de desocupação fixada em baixos 5,3% segundo o IBGE, o endividamento e o comprometimento da renda das famílias atingiram os maiores níveis de todas as séries históricas. A inadimplência no segmento de crédito livre para pessoas físicas alcançou alarmantes 7,8%. Diante de uma taxa básica de juros mantida no patamar de 14% ao ano, o orçamento doméstico ruiu sob o peso do crédito caro, sufocando o consumo.
O poder público aponta como causas a proliferação descontrolada do crédito de alto custo concedido por meio de fintechs e cartões, somada ao impacto financeiro provocado pelas apostas online, sobretudo nas classes de menor poder aquisitivo.
Mas é preciso dizer que existe também uma ligação direta com o grave desequilíbrio das contas públicas. Quando o poder público gasta mais do que arrecada, o mercado financeiro passa a exigir prêmios de risco mais altos. O Banco Central alega que se vê forçado a manter a taxa Selic em níveis elevados, no intuito de conter a pressão inflacionária decorrente desse déficit fiscal.
Com a renda comprometida com o pagamento de juros escorchantes e com a rolagem de dívidas, o poder de compra evapora. O resultado prático é a paralisia das vendas.
A inadimplência corporativa é outra sequela. Segundo dados oficiais da Serasa Experian, o setor privado contabilizou 9,1 milhões de empresas inadimplentes em junho, somando expressivos R$ 232,9 bilhões em dívidas atrasadas. Grandes redes do varejo, como Casas Bahia e Marabraz, foram forçadas a recorrer a processos judiciais de recuperação para tentar reestruturar suas bilionárias obrigações com credores.
No caso da indústria de transformação, a operação, que não é isolada, produz para abastecer o comércio e atender à demanda final. Quando o consumidor para de comprar e o varejista acumula estoques ou entra em crise, a fábrica sofre um choque imediato de demanda negativa. O impacto manifesta-se no corte imediato de encomendas, no aumento da ociosidade das plantas fabris e no alastramento da inadimplência ao longo de toda a cadeia de suprimentos.
Esse impacto atinge os setores industriais de forma desigual. A indústria de bens de consumo duráveis, como eletroeletrônicos, eletrodomésticos e móveis, é a mais prejudicada, pois depende do crédito parcelado a longo prazo. Da mesma forma, o setor automotivo e o têxtil sofrem com a retração das vendas.
Além disso, o fato é que, para as empresas em geral, torna-se um imenso desafio manter a competitividade, visto que investimentos em inovação, pesquisa e desenvolvimento exigem expressivos recursos financeiros. Mesmo nas linhas do BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico), as taxas acompanham a pressão da Selic elevada, enquanto no sistema bancário privado o crédito para negócios com restrições financeiras atinge patamares proibitivos. Como o retorno desse capital investido é demorado, o alto custo do financiamento acaba inviabilizando avanços tecnológicos importantes para a sobrevivência do setor produtivo.
Para destravar a economia nacional, o país precisa de um caminho claro, integrado e propositivo. O reequilíbrio sustentável das contas públicas é um passo fundamental para permitir uma queda consistente e duradoura da taxa de juros, aliviando o orçamento sufocado das famílias e das empresas.
*Vandermir Francesconi Júnior é primeiro vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp. O artigo foi divulgado, originalmente, no Jornal de Jundiaí, edição de 8 de setembro de 2026.