A velocidade vertiginosa com que a inteligência artificial transforma o ambiente corporativo exige que líderes, gestores e profissionais repensem o conceito de trabalho. No centro dessa transformação estão as chamadas soft skills: habilidades comportamentais, socioemocionais e atitudinais que determinam como nos relacionamos, resolvemos problemas e nos adaptamos, diferenciando-se das hard skills, que representam o conhecimento estritamente técnico.
Apesar de terem ganhado relevância corporativa nas décadas de 1970 e 1980, quando o mercado percebeu que a técnica isolada não bastava, essas competências atingem agora um patamar inédito de urgência. O relatório Future of Jobs, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial com base em ampla pesquisa junto a mais de 1.000 líderes globais em 55 economias, dimensiona essa reviravolta: até 2030, calcula-se que 92 milhões de postos de trabalho tradicionais desaparecerão, enquanto 170 milhões de novas funções surgirão para atender a um mercado em profunda mutação.
Para os empregadores, a tecnologia executa tarefas repetitivas com precisão, mas carece de intuição, empatia e discernimento ético. É por isso que as soft skills tornaram-se o núcleo da sobrevivência competitiva. A pesquisa destaca que a criatividade, o pensamento analítico pautado no senso crítico e a proatividade encabeçam a lista das competências indispensáveis para navegar pelas incertezas dessa nova economia.
Para os profissionais, o domínio técnico continua sendo a porta de entrada, mas são as habilidades comportamentais que garantem a permanência e a ascensão na carreira. Em um cenário onde a técnica envelhece depressa, a capacidade de aprender continuamente, questionar criticamente os resultados das máquinas e propor soluções originais blinda o trabalhador contra a irrelevância. Ser proativo hoje significa antecipar cenários complexos e liderar com resiliência.
Nesse contexto, os departamentos de Recursos Humanos assumem um papel estratégico central, atuando como arquitetos de culturas organizacionais orientadas à aprendizagem ágil e ao desenvolvimento dessas competências. No Brasil, atentar-se a esses diferenciais é vital para a competitividade e a soberania econômica no cenário internacional.
Valorizar o elemento humano com inteligência e estratégia é o caminho adequado para que a inovação traga de fato valor. Em suma, avanço tecnológico e valorização humana precisam caminhar lado a lado e investir na harmonia entre a excelência técnica e as competências comportamentais é o passaporte definitivo para a prosperidade na era digital.
Vandermir Francesconi Júnior é o primeiro vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp. O artigo foi publicado, originalmente, no Jornal de Jundiaí, edição de 27/10/26.