A discussão sobre o fim da escala 6x1 é legítima e necessária. Ela toca diretamente a qualidade de vida dos trabalhadores e reflete transformações importantes na forma como a sociedade enxerga o trabalho. E o envio recente de proposta ao Congresso Nacional sobre o tema reforça a urgência desse debate. Mas, como toda mudança estrutural, precisa ser tratada com responsabilidade e visão de conjunto.
A questão não é ser contra ou a favor da redução da jornada. O desafio está em como fazer isso sem comprometer a competitividade das empresas e, consequentemente, a geração de empregos e de renda. No setor industrial — especialmente em regiões como o Grande ABC — isso é ainda mais sensível.
A indústria já opera sob pressão de custos elevados, carga tributária complexa e baixa produtividade. Alterações na jornada, se não vierem acompanhadas de ganhos de eficiência, vão aumentar o custo do trabalho. Na prática, isso significa menor capacidade de investir, contratar e crescer.
Experiências internacionais mostram que a redução de jornada pode trazer resultados positivos quando está ligada a aumento de produtividade, inovação e reorganização do trabalho. Não deve ser uma mudança isolada. É parte de um processo mais amplo, que envolve tecnologia, gestão e qualificação.
No Brasil, esse contexto ainda está em construção. Dados de produtividade mostram avanços lentos nas últimas décadas, o que exige cautela na adoção de medidas que impactem diretamente o custo das empresas.
Outro ponto importante é a diversidade da economia. Diferentes setores têm dinâmicas próprias, com demandas específicas de operação, sazonalidade e escala. Uma solução única, aplicada de forma uniforme, pode gerar distorções e efeitos indesejados, especialmente para pequenas e médias empresas. No Grande ABC, esse impacto é ainda maior, pois a indústria funciona como eixo da economia regional, conectando uma ampla rede de serviços, comércio e logística. Quando esse núcleo perde fôlego, o efeito se espalha por toda a cadeia.
Por isso, o caminho mais consistente passa pelo diálogo. Empresas, trabalhadores e poder público precisam construir soluções que equilibrem qualidade de vida e sustentabilidade econômica. Negociação coletiva, flexibilidade e adaptação à realidade de cada setor são instrumentos fundamentais nesse processo.
A qualidade de vida também está diretamente ligada a emprego e renda. Sem uma base produtiva forte e sustentável, não há estabilidade nem perspectivas de longo prazo para o trabalhador. O debate é importante. E precisa ser feito com responsabilidade.
Eduardo Batistella Mazurkyewistz - diretor titular da Regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) – Regional Santo André – que também abrange as cidades de Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
Sobre o CIESP Santo André - O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) – Regional Santo André atua em defesa dos interesses das indústrias de Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, promovendo integração, qualificação e desenvolvimento econômico sustentável na região do Grande ABC.
Fonte: Diário do Grande ABC, 16 de abril de 2026.