Monopólio da Petrobras faz gás nacional ficar mais caro que boliviano - CIESP

Monopólio da Petrobras faz gás nacional ficar mais caro que boliviano

A redução do preço do petróleo no mercado internacional puxou para baixo o valor do gás natural boliviano, hoje cotado em US$ 6 por metro cúbico de BTU (unidade inglesa de medida). Na contramão, o preço praticado do gás brasileiro é 50% mais caro: US$ 9 o MBTU.


A explicação estaria na política de precificação criada pela Petrobras para desestimular o aumento da demanda interna e, assim, deslocar o energético para geração termelétrica, a fim de compensar a redução no nível de reservatórios de hidrelétricas no ano passado. A medida ampliou o consumo das termelétricas para mais de 15 milhões de MBTU, em 2008. Atualmente, o uso de gás para produção de energia está na casa dos 4,8 milhões.


O problema, de acordo com debatedores reunidos nesta terça-feira (6), no 10° Encontro Internacional de Energia, promovido por Ciesp e Fiesp, em São Paulo, é que o valor cobrado pelo gás não acompanhou a nova realidade brasileira. “Esse preço foi estabelecido num momento em que havia pouco gás e alta no preço do petróleo”, recordou Rodolpho Tourinho, ex-ministro de Minas e Energia.


Tourinho, atual assessor de relações institucionais e governamentais da Fiesp, afirmou que o alto preço decorre de monopólio exercido pela Petrobras. “A produção está 95% concentrado na mão dela e a distribuição, 100%”, enfatizou.


Na avaliação de Luiz Pedro Bizoto, consultor da  Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), a valorização do gás prejudica o segmento. “Como é que o setor vai competir com um preço interno maior do que o praticado por seus competidores diretos, como Estados Unidos e Itália?”, questionou. Nos EUA, o MBTU custa US$ 3,5 – duas vezes e meia menos que no Brasil.


Bizoto afirmou que algumas empresas estão reduzindo a produção e outras, como a GPC Química, do Rio de Janeiro, tiveram que encerrar suas atividades por falta do insumo, tanto como energético como matéria-prima.


“Este é o momento de aproveitar o pré-sal para colocar a discussão do gás como matéria-prima para a indústria química”, sugeriu o representante da Abiquim. “Estamos no instante exato de adotar essa política, porque demora quatro anos para implantar uma fábrica, justamente o período em que o pré-sal entrará em operação”, alertou Bizoto.


Diálogo


Segundo levantamento apresentado pela GasEnergy, o volume total de gás natural que circula pelo Brasil é de cerca de 60 milhões de MBTU anuais – sendo o setor industrial o maior consumidor, com 23 milhões, seguido pelo petroquímico (6,8 milhões). “Está sobrando gás por causa da redução do consumo provocada pela crise e do equilíbrio entre oferta e demanda”, avaliou Ricardo Pinto, diretor de negócios da empresa.


O executivo afirmou que há uma folga de 20 milhões de MBTU devido a um excedente de 10 milhões no volume contratado da Bolívia (do total de 31 milhões, o Brasil só tem importado 21), e outros 10 milhões da produção interna.


O diretor da GasEnergy, no entanto, alertou que o Plangás (plano da Petrobras para expansão da oferta) deve ampliar a produção interna para 71 milhões de MBTU até 2013, ou seja, antes da operacionalização do pré-sal. “O País terá muito gás, mas esse gás precisa ter um mercado firme que possa consumi-lo”, indicou Pinto.


Para Lucien Belmont, superintendente da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro (Abividro), o excesso de oferta pode indicar algum erro de comunicação do mercado. “A única forma de diminuir o custo [para as distribuidoras] é aumentar o consumo. O problema é que não estamos conseguindo chegar a um acordo”, reconheceu.


Belmont propôs reunir produtores, distribuidores e consumidores para chegar a um acordo sobre um preço mínimo que contente a todos. “A alternativa que temos é sentar e conversar. Já fizemos tudo, menos isso”, sugeriu.


Nivaldo Souza, Agência Ciesp de Notícias