Integração sul-americana deve ter Brasil e Argentina como articuladores - CIESP

Integração sul-americana deve ter Brasil e Argentina como articuladores

 

A aproximação comercial entre Brasil e Argentina, tendo no comércio bilateral um modelo para a região sul-americana, foi abordada hoje (25) no Encontro Empresarial São Paulo-Argentina. O evento realizado na Fiesp fez parte da “Missão Comercial Multisetorial ao Brasil – São Paulo-Belo Horizonte” organizada pelo governo argentino, que trouxe representantes dos setores público e privado para apresentarem oportunidades de negócios a empresários brasileiros.

 
Cerca de 100 empresas argentinas de diversos ramos de atividade participaram de 400 reuniões pré-agendadas. “O encontro de hoje é para conhecermos as vantagens de cada país. Temos que incrementar essa relação de conhecimento, que mostra como intensificar os investimentos mútuos. Também iremos à Argentina para vê-la de perto, para aprofundarmos nosso conhecimento, para estarmos próximos de maneira constante e fortalecer o Mercosul”, declarou o presidente do Ciesp e da Fiesp, Paulo Skaf.
 
Skaf ressaltou ainda a necessidade de superação das disputas bilaterais para que os países possam estabelecer agenda estratégica comum, com o objetivo de atuarem como parceiros no mercado global. “Falamos e ouvimos falar muito do fortalecimento do Mercosul e das relações entre Brasil e Argentina, mas na verdade nossas reuniões têm sido para discutir contenciosos comerciais. Muitas vezes gastamos energia que não deveríamos. Temos que mudar isso, nossos problemas estão relacionados, verdadeiramente, com outros países, e seus efeitos em nossas economias. Precisamos é discutir acordos, buscar o perfeito entendimento entre nós”, afirmou.
 
Público e privado nas relações bilaterais
Para o ministro de relações exteriores e comércio internacional argentino, Jorge Taiana, somente com o trabalho conjunto entre Estado e setor privado será possível vislumbrar um Mercosul consistente, sendo Brasil e Argentina os articuladores do processo de sinergia regional. “A vontade de avançar a integração é positiva para os dois países. Mas se quisermos fortalecer essa aproximação temos que intensificar a relação entre setor público e privado”, sublinhou.
 
A saída de médio prazo apontada por Taiana é a correção de disparidades comerciais. O Brasil é o principal destino das exportações argentinas, sendo responsável por quase 20% da balança comercial do país. Em 2007, o fluxo do comércio (soma de importações e exportações) entre os dois países alcançou históricos US$ 25 bilhões, com superávit brasileiro de US$ 4 bilhões, segundo o Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior brasileiro. “O déficit no intercâmbio industrial é um ponto que temos que trabalhar, tendo em vista que o comércio é importante para a integração, mas que deve ser produtivo para ambos”, destacou.
 
Mercado sul-americano
Para o secretário geral do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, Samuel Pinheiro Guimarães, o fluxo comercial superavitário de 2007, quando a Argentina firmou-se como segundo parceiro do Brasil nas Américas, atrás apenas do EUA, é reflexo da linha estratégica de relações internacionais do país em direção ao mercado regional. “Do ponto de vista da política externa brasileira, consideramos a Argentina como principal parceiro numa zona econômica [sul-americana] que se forma”, afirmou Pinheiro.
 
No mesmo sentido, Horacio Quiroga, subsecretário de relações institucionais argentino, ressaltou a ausência de conflitos como fator determinante para impulsionar a integração. “Não temos problemas políticos e religiosos, e isso nos permite dizer que esta é uma condição básica para integração e resolução de problemas locais comuns”, disse.
 
A aproximação econômica entre Brasil, Argentina e demais países sul-americanos estaria condicionada, segundo os especialistas, ao fortalecimento institucional do Mercosul, que atuaria como modelo regulatório da política externa no continente. Na opinião do ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, “a América Latina vive um período delicado” que exige de Brasil e Argentina “reforçar a ordem institucional” a partir do bloco. Ele ressalta, contudo, que a integração coloca como desafio a superação de disputas comerciais (trigo e automóveis) entre os principais parceiros do Mercosul, com vistas a construir um bloco sólido, preocupado em estabelecer planejamento estratégico em áreas como a energética, por exemplo. 
 
Mercado paulista
O estado de São Paulo foi apontado pelo embaixador Luis Maria Kreckler, subsecretário de comércio internacional da Argentina, como o principal alvo na política de exportações de seu país. Segundo ele, a escolha se deve ao fato de a região representar US$ 48 bilhões do PIB brasileiro, cerca de 35% de toda riqueza nacional. “Consideramos São Paulo como uma região de grande importância no âmbito das relações com o Brasil. Nosso objetivo primário é aprofundar nossa introdução no processo produtivo paulista. Num imenso mercado consumidor de 190 milhões de habitantes [no país], o estado constitui um verdadeiro desafio internacional como ponto de concentração das exportações argentinas”, destacou Kreckler.
 
Foto: Kênia Hernandes
 
Agência Ciesp de Notícias
Nivaldo Souza
25/03/2008