Conflito no relacionamento entre polícia e mídia é debatido na Fiesp/Ciesp - CIESP

Conflito no relacionamento entre polícia e mídia é debatido na Fiesp/Ciesp

A Fiesp e o Ciesp reuniram, nesta quinta-feira (22), jornalistas e policiais civis e militares em seminário quedebateu o relacionamento entre as duas esferas.

O consenso policial é de que o tratamento da mídia na cobertura do tema violência melhorou quando comparado ao de duas décadas atrás, mas a tendência sensacionalista, que persiste em casos pontuais, transformando a notícia em entretenimento, ainda é preocupante.

Para o ex-secretário Nacional de Segurança Pública, coronel José Vicente da Silva, a mídia não tenta denegrir a imagem da polícia, mas, segundo ele, falta contextualização nas matérias publicadas. “Alguma nota de forma sensacionalista cria medo na população e desvirtua a imagem da polícia”, afirma Vicente.

No mesmo raciocínio segue o coronel da Reserva da Polícia Militar, Paulo Regis Salgado, que reconhece que os jornalistas “são os olhos da comunidade”, mas que precisa haver um questionamento sobre a forma que as informações são divulgadas.

De acordo com ele, a violência e a criminalidade têm natureza social, mas quem paga a conta, por estereótipo, é a polícia. “Isso precisa ser discutido, e aí entra o papel da imprensa”, observou. “Assumimos nossos erros, mas tem que haver responsabilidade com a informação”, acrescentou.

O diretor da Assessoria de Comunicação Corporativa da Fiesp/Ciesp, o jornalista e escritor Ricardo Viveiros, ponderou que é preciso haver um diálogo e, principalmente, um entendimento entre as duas partes.

“A polícia brasileira é uma das melhores do mundo, mesmo como um judiciário lento, baixos salários […] Mas, assim como no jornalismo, na polícia também há maus profissionais”, ressaltou Viveiros, que mediou os debates.

A secretaria de Segurança Pública recebe quatro mil pedidos de imprensa por mês e mais de cem por dia, mas alega que a alta carga de responsabilidade na divulgação de informaçõesaos veículos de comunicação acaba limitando o diálogo entre o jornalista e a polícia.

“É na área policial que ocorre a briga mais dura por audiência […] Por isso, muitas vezes, não se reflete a realidade das estatísticas policiais”, explicou o coordenador de imprensa da secretaria, Ênio Lucciola.

Outro lado
Para o jornalista do Estado de S. Paulo, Bruno Paes Manso, a relação entre polícia e mídia parece substituir a lentidão da justiça. “Muitas vezes o jornalista é visto como aquele que também acusa, e por isso somos criticados. Mas é o que a sociedade espera da gente”, disse.

No entanto, Manso acredita que a função da imprensa é de incomodar, ser desagradável e instigar as pessoas a verem também o lado negativo das coisas. “Eu vejo mais como um analista, que tem o papel de jogar algumas verdades na cara das pessoas, que muitas vezesnão querem enxergar”.

O jornalista Valmir Salaro, da Rede Globo, foi um dos primeiros a divulgar as informações do caso Escola Base, em 1994, quando órgãos da imprensa publicaram uma série de reportagens que acusavam pessoas ligadas à escola de abuso sexual de crianças. Os donos da instituição chegaram a ser presos, mas o inquérito foi arquivado por falta de provas.

“Muitas vezes os jornalistas querem ser os algozes, fazer denúncias. Mas é preciso entender que jornalista não é para fazer justiça. O repórter tem que desconfiar sempre”, afirmou. “Temo ter acreditado em todas as autoridades e não ter feito a reflexão. Hoje desconfio de mim mesmo”, revelou Salaro.

Fábio Rocha e Mariana Ribeiro, Agência Indusnet Fiesp