Apesar do fim da crise, desafios dos emergentes continuam - CIESP

Apesar do fim da crise, desafios dos emergentes continuam

Tecendo uma análise sobre o fim da fase mais aguda da crise e dos possíveis caminhos para os países em desenvolvimento, Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Fiesp e do Ciesp, o economista José Roberto Mendonça de Barros, o ex-ministro da Economia da Argentina, Roberto Lavagna, e o vice-presidente do Instituto de Economia da China, Zhang Ping, apontam as necessidades de seus países no novo cenário internacional.







Foto: Mário Castello


FRANCINI – Volatilidade cambial afasta exportador e alta carga tributária diminui competitividade de produtos brasileiros no mercado global


Durante o Congresso da Indústria, nesta segunda-feira (28), Paulo Francini disse que o segmento mais atingido durante a crise financeira foi o industrial. Lembrando os dados do último Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) – que mede o nível nacional de emprego –, o diretor ressaltou que no acumulado de outubro de 2008 a agosto desse ano, a indústria, sozinha, foi responsável por 400 mil demissões, sendo que a soma dos demais setores não ultrapassou 45 mil postos perdidos.


“O PIB industrial brasileiro perdeu 20 pontos percentuais durante a crise, mais do que qualquer outra parte da economia”, explicou o diretor. “Desde o início da nossa recuperação, já subimos nove dos 20 andares perdidos, resta trabalharmos os outros 11 de maneira apropriada”, pontuou.


De acordo com ele, as exportações foram as que mais sofreram com a recessão mundial, principalmente devido a duas barreiras. A taxa de câmbio é a mais significativa, pois no Brasil tem se comportado de maneira extremamente volátil, o que gera insegurança no exportador para o escoamento externo.


O segundo empecilho são os inúmeros tributos cobrados dos produtos que saem do País. “Os impostos não recuperáveis sobre as exportações nacionais chegam a 6%, taxa alta que reduz a competitividade dos produtos”, advertiu Francini. Em sua opinião, caso esta política não seja alterada, não se pode apostar num cenário otimista para o setor.


Oportunidades







Foto: Mário Castello


BARROS – Exportação de commodities deve ser acompanhada de contrapartidas, como transferência de tecnologia e investimento em infraestrutura


Já o economista José Roberto Mendonça de Barros chamou a atenção para a relação entre recursos naturais e o desenvolvimento industrial. A América Latina, esclarece, pode aproveitar boas oportunidades internacionais com a exportação de commodities, desde que atrelada a transferências tecnológicas, ao incentivo à educação e ao investimento na infraestrutura.


“A exportação de insumos, não apoiada por estes pilares, tem grande chance de estancar o desenvolvimento econômico do Brasil”, indicou Barros. “Nosso objetivo deve ser compatibilizar os recursos econômicos com os naturais, para acharmos o equilíbrio ideal para o crescimento com sustentabilidade”, completou.







Foto: Mário Castello

LAVAGNA – Controle da inflação na Argentina deve ser a principal meta econômica do vizinho sul-americano


O caso argentino possui outras especificidades. Segundo Lavagna, a estratégia de seu país concentrou-se nos esforços fiscais, já que o colapso econômico teve um grande impacto sobre a taxa de juros. “Uma das metas mais urgentes da Argentina é recuperar a estabilidade inflacionária, que se encontra em 15% em medidas reais”, afirmou.


Além disso, Buenos Aires tem outras preocupações, como a reforma na política monetária, para reverter a falta de investimentos estrangeiros, e sanar os déficits públicos, para que os investimentos sociais não fiquem prejudicados.


A China, por sua vez, é uma das nações mais fortalecidas do pós-crise. Segundo levantamento oficial, o crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano supera os 7% e as projeções são de que a economia chinesa se torne a segunda maior do mundo já em 2010, lembrou o representante do governo, Zhang Ping.


Contudo, continuou o economista, uma política que deve ser repensada é o protecionismo estatal em torno dos alimentos, principalmente em relação à água. Segundo ele, “os índices de poluição, o desmatamento por conta do crescimento da infraestrutura e a volumosa necessidade de recursos naturais para a produção industrial têm gerado rápido esgotamento de matérias-primas”.


Thiago Eid, Agência Indusnet Fiesp