9º Encontro de Energia: Setor energético deve passar à margem da crise para garantir competitividade da indústria, aconselham investidores - CIESP

9º Encontro de Energia: Setor energético deve passar à margem da crise para garantir competitividade da indústria, aconselham investidores


9º Encontro de Energia: Gerdau e Votorantim criticaram aumento da participação de térmicas movidas a combustíveis fósseis na matriz energética brasileira. Entraves ambientais levam a mau aproveitamento do potencial hidrelétrico e tiram competitividade do setor

A única garantia de ter um futuro mais tranqüilo para assegurar competitividade à indústria é manter o fluxo de investimentos no setor energético, afirmou hoje o diretor superintendente da Votorantim Energia, Otávio Carneiro de Rezende.

 
“A energia não pode ficar sujeita a momentos de crise econômica, por ser um setor de longo prazo. Nossa decisão hoje vai se refletir daqui a cinco ou seis anos, e não pode sofrer descontinuidade de recursos ou de investimentos”, disse, durante debate no 9º Encontro de Negócios de Energia, que Ciesp e Fiesp promovem entre hoje e amanhã no Hotel Unique, em São Paulo.

“É um setor que deve passar à margem da crise mundial, senão estaremos provocando uma crise só nossa no futuro”, acrescentou Rezende, em uma referência à turbulência global que restringe a liquidez das instituições financeiras.

 
Investimentos pós-crise
Garantir suprimento e modicidade tarifária é preceito do modelo do setor energético, segundo a diretora executiva da Associação Brasileira de Concessionárias de Energia Elétrica (ABCE), Silvia Calou, coordenadora do painel “Garantia de oferta e preço competitivo como instrumentos de competitividade”, que contou com a participação de grandes grupos consumidores e investidores em energia.
 
“O Plano Nacional de Energia [PNE] para 2030 tem um cenário chamado ‘náufrago’, de profunda crise, que prevê aumento de consumo em 3% ao ano. Portanto, mesmo em um momento de pós-crise, os investimentos são necessários e a participação privada é fundamental”, considerou.
 
Potencial hidrelétrico
No leilão A-5 realizado em setembro, para geração de energia a partir de 2013, 63% dos 3.125 megawatts-médios contratados serão gerados por 17 termelétricas a óleo combustível.

Na avaliação dos investidores, este é um mau aproveitamento do potencial hidrelétrico do país, cujas regiões Norte e Centro-Oeste concentram 70% do potencial a utilizar, o que corresponde a 126 gigawatts. “Precisamos mitigar entraves ambientais e traçar opção estratégica pelas hidrelétricas”, disse Érico Sommer, diretor de meio ambiente e energia do Grupo Gerdau.

 
“Boa parte desse problema vem da parte ambiental. Licenciar um empreendimento virou uma grande negociação. Os entraves do licenciamento nos levam a essa solução que afasta o risco de racionamento em curto prazo colocando as térmicas, mas tira competitividade da nossa energia. É um descompasso com as necessidades do setor”, completou Otávio Rezende, da Votorantim.
 
Elevação dos custos
Segundo o diretor do Grupo Gerdau, houve uma sistemática evolução dos custos da energia brasileira, principalmente para a área industrial. No período de 2001 a 2007, o aumento acumulado foi de 170%, contra uma inflação acumulada entre 50% e 70% – devido a uma ‘explosão’ de encargos setoriais, cujo custo chegou a R$ 12 bilhões neste ano, um aumento de 20% em relação ao ano passado.
 
“O aumento da participação térmica no sistema interligado esse ano, com o despacho fora da ordem de mérito pelo ONS [Operador Nacional do Sistema Elétrico] em decorrência do atraso nas chuvas, já representou um custo adicional de R$ 1,5 bilhão distribuído aos consumidores industriais e residenciais”, apontou Érico Sommer. Medidas necessárias, segundo ele, para garantir o abastecimento, mas que não excluem a necessidade do planejamento prévio no setor.

“Encargos e tributos em energia elétrica aumentam os custos em 86%. O Brasil é o único país em que o investimento é taxado, antes de começar a produção”, acrescentou. Segundo Sommer, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) estima perda de 8,6 pontos percentuais no Produto Interno Bruto do país em 2015, o equivalente a R$ 214 bilhões de reais, se o custo da energia continuar a subir em escalada.

 
Garantia de oferta
A capacidade dos players de mercado em auto-sustentar a expansão da oferta de energia foi assegurada pelos grupos investidores, mas relacionada à clareza das regras para atrair investimentos. A necessidade de aporte em geração e transmissão é de R$ 16,5 bilhões anuais, e o fluxo de caixa líquido dos geradores é de R$ 10,6 bilhões, segundo o superintendente da Votorantim. “Não há problema de recursos, capacidade ou tecnologia. É necessário um regime claro e constante para a segurança dos investimentos”, disse Otávio Rezende.
 
Em relação ao gás natural, Érico Sommer ressaltou a ausência de legislação específica para o modal energético, o problema da segurança do suprimento, o monopólio de suprimento de transporte e o impacto da nova política de preços – que tornou o produto nacional 30% mais caro que o boliviano.

“Precisamos do fortalecimento da agência reguladora, de regras claras para tarifas de transporte e uma lei que contemple auto-produtores, consumidores livres e o livre acesso aos gasodutos”, afirmou o diretor do Grupo Gerdau.

 
Permitir acesso isonômico a todos os agentes nos leilões de contratação de energia, para incentivar a concorrência, e a renovação de contratos de energia existente (A1 e A2) a partir de 2012 a custos competitivos foram outras propostas colocadas em debate.
 
Mariana Ribeiro
Agência Ciesp de Notícias
13/10/2008